CONTO 5 – MEL E OS CACOS DE VIDRO

As aventuras durante os sonhos continuavam. Mel não sabia explicar por que nem como, mas sabia que esses sonhos não eram tradicionais; havia algo de diferente neles. Algumas aventuras eram divertidas; outras, assustadoras. Mas todas tinham algo de diferente, como se Mel fosse uma figura de decalque, não estivesse bem encaixada ali; como se ela estivesse atuando entre duas dimensões diferentes, com um pé lá e outro cá, vendo e vivendo aquele sonho, mas consciente de que “pertencia” a outra dimensão. Era como se ela estivesse no meio de um portal interdimensional, e ela não conseguia compreender bem nem explicar isso para outras pessoas.

Em vários desses sonhos, Mel voava. Voava pela cidade, voava entre prédios muito altos, passava por baixo de pontes (até da ponte Rio-Niterói, imaginem!), subia até a pontinha de arranha-céus, voava entre os brinquedos de um parquinho…E em praticamente todos os sonhos de aventura, o final era o mesmo: Mel caía; despencava de alturas consideráveis e aterrissava bruscamente…em seu próprio corpo. Acordava sobressaltada, ofegante. A queda produzia uma sensação de frio na barriga igual ao que as pessoas sentem quando fazem um passeio de montanha-russa. Parecia uma queda sem fim, uma queda livre a partir de grande altura, mas durava poucos segundos.

Mel queria entender esses sonhos, saber se eram reais, se eram normais, se eram sua imaginação ou o quê. Ninguém sabia conversar com ela sobre isso, nem sua mãe, seus irmãos nem os colegas da escola. Até que uma tarde, assistindo a um filme, viu algum personagem mencionar que em sonhos não sentimos dor. Que se você estivesse em dúvida se estava acordado ou sonhando, bastava você beliscar seu braço: se você sentisse dor, estava acordado; caso contrário, estava sonhando. Puxa! Era uma informação muito útil para o que ela precisava. E Mel decidiu: da próxima vez que eu acordar dentro de um sonho, vou me beliscar; se for um sonho normal, não sentirei dor e terei minha resposta.

E lá foi Mel. Naquela mesma noite, acordou dentro de um sonho e, estando ciente de que estava em um sonho, fez o teste do beliscão. Não sentiu dor e achou aquilo curioso. Nesse sonho estava em um posto de gasolina, perto do setor de lava-jato, e havia algumas garrafas de vidro no chão. Sem querer, derrubou e quebrou uma delas. Decidiu limpar a bagunça: já que estava sonhando e não poderia sentir dor, poderia limpar, sem proteção, os cacos de vidro. E lá foi ela pegar os caquinhos. O frentista viu a cena e veio correndo tentar impedi-la, mas não chegou a tempo; Mel arranhou as mãos e os braços com os cacos e sentiu a dor e a queimação dos pequenos cortes. Espantada, não sabia se o que mais incomodava era a dor ou a inconsistência dessa realidade: por que o beliscão não doeu, mas os cortes com os cacos, sim? E o frentista, finalmente chegando, um pouco ofegante, disse: “Tentei avisá-la para tomar cuidado com os cacos! Este aqui não é um sonho comum. Aqui algumas sensações são até mais intensas do que na realidade lá fora!” Mel continuou espantada, e ainda mais curiosa. E pegou a garrafa quebrada e decidiu cortar mais fundo seu braço, para ver o que aconteceria. O frentista tentou gritar: “Não faça isso!” Mas novamente não deu tempo; Mel cravou a garrafa no braço esquerdo, sentiu o início de uma dor lancinante, viu o sangue escorrer e, antes que a sensação de dor aumentasse, instantaneamente retornou ao seu corpo físico, com aquela sensação de queda livre e frio na barriga.

Quantas coisas ela vivia e não sabia, e não tinha a quem perguntar. Será que ela precisaria fazer experiências por conta própria para compreender melhor essas coisas, ou alguém apareceria para ajudá-la? Veremos a continuação dessas aventuras nas próximas histórias, caro leitor!

 

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