KARMA E LIVRE-ARBÍTRIO: QUANTO MAIS EVOLUÍMOS, MAIS LIBERDADE CONQUISTAMOS

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Muita gente considera karma e livre-arbítrio conceitos incompatíveis. Se existe karma, dizem, então nossas escolhas já estariam determinadas pelas consequências do passado. Se existe livre-arbítrio, então poderíamos fazer qualquer coisa e escapar do karma. As duas conclusões estão erradas porque partem de extremos. Na visão que desenvolvo em O Karma e Suas Leis, karma e livre-arbítrio coexistem e se complementam. Somos livres, sim, mas nossa liberdade nunca é absoluta. Escolhemos dentro das condições que nós mesmos ajudamos a construir.

Esse ponto é importante porque muda a forma de enxergar a vida. Não somos vítimas de um destino pronto, mas também não chegamos a cada manhã com uma folha completamente em branco. Carregamos corpo, saúde, família, cultura, capacidades, limitações, relacionamentos, grupokarmas, condições econômicas, tendências psicológicas e uma longa bagagem multiexistencial. Tudo isso compõe o cenário dentro do qual exerceremos nossa vontade.

O LIVRE-ARBÍTRIO É SEMPRE RELATIVO

Quando falamos em livre-arbítrio, algumas pessoas imaginam liberdade absoluta: posso fazer qualquer coisa que desejar. Isso nunca existiu. Nem mesmo uma consciência muito evoluída possui liberdade para contrariar impunemente as leis evolutivas do Universo. Quanto mais lúcida ela se torna, aliás, mais compreende essas leis e espontaneamente passa a respeitá-las.

No plano físico isso é fácil de perceber. Você pode decidir saltar do décimo andar, mas não pode escolher eliminar a gravidade. Pode decidir gastar todo o seu dinheiro, mas não pode decretar que as consequências financeiras deixem de existir. Pode falar o que quiser para alguém, mas não controlar integralmente a reação que receberá.

Somos livres para produzir causas, não para cancelar arbitrariamente todos os seus efeitos.

O mesmo princípio vale para o karma. Exercemos livre-arbítrio, produzimos consequências e depois encontramos um novo cenário parcialmente condicionado pelas decisões anteriores.

KARMA NEGATIVO REDUZ O CAMPO DE ESCOLHAS

Uma das ideias que desenvolvo em O Karma e Suas Leis é a relação inversa entre karma negativo e livre-arbítrio. Quanto maior o acúmulo de consequências negativas, menor tende a ser nossa liberdade naquela área.

Não precisamos ir muito longe para compreender isso. Uma pessoa que durante anos destruiu sua saúde com maus hábitos pode chegar a determinada idade com escolhas muito mais restritas. Alguém que acumulou enormes dívidas financeiras não possui a mesma liberdade econômica de antes. Quem passou décadas rompendo relações por agressividade talvez se veja isolado quando mais necessita de companhia.

Onde foi parar o livre-arbítrio?

Ele foi usado.

A pessoa teve liberdade anteriormente e utilizou essa liberdade para produzir condições que agora restringem novas escolhas. O karma negativo, portanto, não aparece para destruir o livre-arbítrio; muitas vezes ele é justamente consequência do modo como o livre-arbítrio foi utilizado.

KARMA POSITIVO PODE AMPLIAR NOSSA LIBERDADE

A relação inversa também ajuda a compreender o karma positivo. Quando utilizamos bem nossas possibilidades, tendemos a construir condições mais favoráveis para o futuro. Desenvolvemos competências, criamos relações de confiança, ampliamos conhecimentos, melhoramos nossa capacidade de decisão e construímos créditos conscienciais.

Isso aumenta possibilidades.

Uma consciência responsável consegue receber tarefas maiores porque demonstrou condições para administrá-las. Quem desenvolveu discernimento pode participar de planejamentos existenciais mais complexos. Quem construiu relações fraternas encontra redes de cooperação. Quem aprendeu a trabalhar com equilíbrio pode assumir desafios maiores.

Não se trata de prêmio no sentido infantil: “fui bonzinho, então o Universo me deu presente”. Trata-se de competência evolutiva adquirida.

Liberdade também precisa ser conquistada.

QUANTO MAIS EVOLUÍDO, MAIS LIVRE?

Em linhas gerais, sim, mas é preciso entender corretamente. Quanto mais evoluída é uma consciência, mais amplo tende a ser seu campo de escolhas porque ela possui maior lucidez, menos condicionamentos, menor carga de karma negativo e mais capacidade de compreender as consequências das próprias decisões.

Por outro lado, essa consciência também se torna mais comprometida com a cosmoética. Ela possui mais liberdade, mas não sente vontade de utilizar essa liberdade para prejudicar.

Parece um paradoxo: quanto mais livre, mais disciplinada.

Mas é exatamente isso que ocorre. Uma criança pode desejar fazer inúmeras coisas perigosas porque ainda não compreende as consequências. Um adulto lúcido possui mais autonomia e, justamente por entender melhor, evita comportamentos que a criança tentaria realizar.

A evolução não elimina limites. Ela troca limites impostos pela ignorância por limites assumidos conscientemente pela sabedoria.

O KARMA COMPULSÓRIO E O KARMA AUTOCONSCIENTE

Em minhas classificações do karma, faço também uma distinção didática entre processos mais compulsórios e processos mais autoconscientes. Uma consciência ainda imatura, pouco disposta a reconhecer erros e sem compreensão suficiente dos mecanismos evolutivos possui menor capacidade de participar conscientemente de sua programação existencial. Ela recebe condições mais determinadas pelas consequências que precisa enfrentar.

Já uma consciência com maior lucidez pode participar mais ativamente de seu planejamento antes da reencarnação. Pode aceitar determinados desafios, assumir tarefas, colaborar na escolha de circunstâncias e organizar parte de sua existência futura com maior consciência.

Isso também é liberdade conquistada.

Quanto maior a capacidade de compreender e assumir responsabilidades, maior a possibilidade de participar das próprias decisões evolutivas.

NÃO CONFUNDA LIBERDADE COM FAZER O QUE DÁ VONTADE

Existe ainda uma confusão muito comum entre livre-arbítrio e satisfação imediata do desejo. Fazer tudo o que dá vontade não é sinal de liberdade; muitas vezes é exatamente o contrário.

Uma pessoa dominada por vícios possui vontade, mas sua liberdade está reduzida. Quem não consegue controlar a raiva está preso à própria reação emocional. Quem precisa de aprovação constante depende dos outros para manter seu equilíbrio. Quem é escravo da vaidade, do consumo, do prazer ou da necessidade de vencer discussões possui menos liberdade íntima do que imagina.

A verdadeira ampliação do livre-arbítrio ocorre quando a consciência deixa de ser comandada por seus próprios automatismos.

Autoconhecimento liberta.

Reforma íntima liberta.

Discernimento liberta.

Cosmoética liberta.

CADA ESCOLHA REDESENHA O CAMPO DAS ESCOLHAS SEGUINTES

Esse talvez seja o aspecto mais interessante da relação entre karma e livre-arbítrio. Cada escolha modifica as condições das próximas.

Hoje não escolhemos dentro de um vazio. Escolhemos dentro do resultado de incontáveis decisões anteriores. Amanhã acontecerá a mesma coisa com aquilo que estamos fazendo agora.

Uma pequena decisão pode parecer irrelevante isoladamente, mas hábitos são somatórios de decisões pequenas. O caráter também. O karma também.

Ninguém se torna irresponsável num único dia. Ninguém se transforma numa consciência equilibrada numa única manhã. Vamos construindo tendências, reforçando caminhos, abandonando outros e criando gradualmente o tipo de consciência que seremos.

Por isso não gosto da ideia de que “sou assim mesmo”. Você é assim agora. E esse “agora” é resultado do passado, mas também ponto de partida para o que virá.

NÃO SOMOS TOTALMENTE LIVRES, MAS TAMBÉM NÃO SOMOS PRISIONEIROS

A maturidade está em compreender as duas coisas simultaneamente. Existem condições que não escolhemos nesta encarnação e existem inúmeras decisões que podemos tomar dentro delas. Há limitações reais e também espaços reais de atuação.

Uma pessoa pode não conseguir modificar determinada doença, mas consegue escolher parte da maneira como enfrentará a experiência. Pode não alterar sua família de nascimento, mas pode modificar a própria participação naquela dinâmica. Talvez não consiga recuperar uma oportunidade perdida, porém ainda pode criar novas oportunidades.

O livre-arbítrio trabalha dentro do possível.

E o possível muda conforme a consciência trabalha.

EVOLUIR É AMPLIAR O PRÓPRIO CAMPO DE LIBERDADE

No fundo, karma e livre-arbítrio formam uma engrenagem evolutiva. Utilizamos nossa liberdade, produzimos consequências, aprendemos com elas e então recebemos um novo campo de escolhas. Quando usamos mal a liberdade, criamos limitações. Quando aprendemos a utilizá-la melhor, ampliamos possibilidades.

Isso acontece vida após vida.

Portanto, não precisamos perguntar se somos livres ou se estamos submetidos ao karma. As duas coisas acontecem ao mesmo tempo. Somos relativamente livres dentro do conjunto de condições que nossa própria trajetória ajudou a formar.

A questão mais importante é o que fazemos com a liberdade que ainda possuímos.

Porque cada escolha de hoje está construindo o tamanho de nossa liberdade de amanhã.

Dalton Campos Roque
ramatis.org
consciencial.org

 

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